25 de abr. de 2011

A Amazônia emudecida

Leia abaixo o texto de Lucio Flávio Pinto, publicado no dia 20.04.2011, sobre hidrelétricas na Amazônia:
A hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, a primeira de grande porte da Amazônia, começou a ser construída em 1975 e entrou em funcionamento em 1984. Pelos planos do governo federal, outras usinas do mesmo tamanho – ou equivalentes – deviam ter-se seguido imediatamente.
Havia duas lógicas fundamentais a sustentar essa estratégia. Uma: a água, além, de possibilitar a energia mais limpa e renovável que existe, tem o menor custo por kWh. A outra lógica básica: a Amazônia abriga a maior bacia hidrográfica do planeta.
Passaram-se três décadas até que uma nova grande hidrelétrica voltasse a ser construída na Amazônia. Não mais no Pará, detentor do maior potencial energético do país, mas em Rondônia, no extremo oeste. Em vez de apenas uma barragem de alta queda, como no rio Tocantins, Santo Antônio e Jirau serão duas represas baixas, com menos da metade da altura da estrutura de concreto de Tucuruí.
Não é uma mudança irrelevante. Os rios amazônicos têm geralmente baixa declividade natural. Pelo seu perfil, não poderiam abrigar grandes usinas. Foi por isso que o barramento do Tocantins se elevou por 70 metros, permitindo a geração de 8,2 mil megawatts, correspondente a 7% de toda a oferta atual de energia do Brasil.
Como consequência desse projeto, Tucuruí inundou uma área de três mil quilômetros quadrados (ou 300 mil hectares). Quando o Tocantins está no seu apogeu, como agora, é de impressionar a torrente de água que passa pelas comportas da represa.
São mais de 10 mil metros cúbicos (ou 10 milhões de litros) de água a cada segundo. Quando o rio baixa, surgem os paliteiros, árvores que morreram e permanecem insepultas na área do lago, o maior reservatório artificial do Brasil, com 45 trilhões de litros de água armazenados.
As duas hidrelétricas rondonienses não formarão lagos semelhantes no rio Madeira, o principal afluente do Amazonas. Como serão barragens de baixa queda, elas funcionarão com água quase corrente – ou “a fio d’água”, conforme a terminologia técnica. Com muita vazão, haverá muita energia. No verão, pouca energia.
Do ponto de vista da engenharia elétrica, um grande prejuízo. O ideal dos “barragistas” é ter água estocada para poder gerar o ano inteiro, ainda que em intensidade decrescente. Para os ambientalistas, significa menor impacto ecológico e social, menos agressão à natureza e ao homem. Tucuruí provocou o afogamento de milhares de árvores, animais, recursos do subsolo e provocou alteração na qualidade da água. Além de deslocar para as terras altas (os “firmes”) o habitante nativo, o “varzeiro”, que vivia à margem do rio havia muitas gerações.
Para que houvesse um ponto de equilíbrio entre uma e outra posição, foi criada uma nova tecnologia para as turbinas, capazes de funcionar com o movimento horizontal das águas, sem a criação de desnível artificial, uma condição apropriada para os rios de planície da Amazônia.
Todas as turbinas de Jirau e de Santo Antonio são do tipo bulbo. Porém, nunca houve hidrelétricas com tantas dessas turbinas (mais de 90 no total) e potência tão elevada. Não deixa de ser uma experiência nova, de vanguarda, com razoável margem de risco. Não tanta porque a vazão do Madeira se mantém razoável mesmo no período de estiagem.
Não é o caso do Xingu, no Pará. É ali que começa a ser construída uma hidrelétrica maior do que as duas de Rondônia juntas, só inferior a Itaipu, no Paraná, e a Tucuruí. A vazão do Xingu chega a se reduzir em mais de 30 vezes entre o inverno e o verão.
Numa estiagem rigorosa, não haverá água para movimentar qualquer das 20 máquinas gigantescas a serem instaladas na sua casa de força. A usina ficará completamente parada por 2, 3 ou mais meses. É aí que a hidrelétrica a “fio d’água” revela sua maior desvantagem: por que construir uma usina tão cara (R$ 30 bilhões), tão distante e tão complexa se durante parte do ano ela ficará inativa?
A resposta está na ponta da língua dos “barragistas”: graças ao sistema integrado nacional de energia, quando não estiver transferindo sua produção, por falta de água, a hidrelétrica amazônica a receberá das bacias situadas em áreas que então estarão com chuvas.
A explicação seria convincente se acrescentasse a resposta satisfatória à questão seguinte: e para quem será distribuída essa energia do sul do país, se não há procura por ela na Amazônia, transformada também em colônia energética, com pouca demanda própria de energia e ainda por cima com a tarifa mais cara do Brasil, mesmo sendo a terceira maior exportadora nacional?
Provavelmente porque não há resposta para calar esse questionamento, a responsabilidade pela construção das extensas linhas de transmissão, com dois mil e mais quilômetros (a de Porto Velho irá até Araraquara, em São Paulo), continuou nas mãos do governo, enquanto a construção e operação das usinas foram privatizadas (mas não tanto: o principal agente financeiro é um banco estatal, o BNDES, e entre os parceiros destacados da iniciativa privada estão empresas públicas de energia e fundos de pensão de estatais).
No momento em que um desses concessionários, a Norte Engenharia, anuncia que as obras da hidrelétrica de Belo Monte, projetada para ser a terceira maior do mundo, começarão no próximo mês (o canteiro teve partida no mês passado), verifica-se que muitas questões vitais como essas continuam à margem dos debates. Pior do que isso: não contam nas decisões.
Não só por autoritarismo do governo. Também porque, quando se trata de Amazônia, a razão costuma ser atropelada pela paixão e pelo emocionalismo dos que, de um e de outro lado do ringue plebiscitário, se apresentam como os pais (ou donos) da região, vítima dessa tutela arrogante.

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