7 de abr. de 2011

O mercado, os produtos e suas relações na BR-163

Identificar os feirantes e os produtos que eles comercializam no Distrito Florestal Sustentável (DFS) da BR -163 foi o objetivo de estudos que apontam pontos positivos para se manter a floresta em pé.



Plantas medicinais, artesanato, frutas, resinas, sementes, óleos, látex, fibras. Esses são alguns dos produtos que podem ser encontrados à venda ao longo das estradas que cortam a Amazônia. São de origem florestal, mas não dependem do desmatamento para se manter, além de representarem para as comunidades rurais, dessas localidades, importantes recursos para sua subsistência, como remédios, alimentos, abrigo e fonte de renda.

“O interesse mundial pelos produtos florestais não-madeireiros (PFNM) representa um grande potencial para o uso múltiplo da floresta, evidenciado pelo crescente interesse por produtos naturais somado à preocupação com a conservação dos ecossistemas florestais”, é o que afirma a bolsista de iniciação cientifica do Museu Emílio Goeldi, Nássia Carvalho, em seu estudo “Levantamento de produtos florestais não-madeireiros comercializados em mercados dos municípios localizados na BR-163, Pará”.

A pesquisa de Nássia Carvalho, que teve a orientação de Márlia Coelho-Ferreira e a co orientação de Ronize Santos – ambas pesquisadoras do Goeldi –, teve como meta registrar os PFNM das categorias alimentícia, artesanal e medicinal comercializados nos mercados, feiras e entrepostos dos municípios do Distrito Federal Sustentável (DFS) da BR -163. Além disso, a bolsista também incluiu em sua pesquisa o perfil dos feirantes que realizam esse comércio.

Os feirantes e os produtos – Assim, em uma amostra de 62 pessoas, Nássia verificou que mais da metade desse grupo tem no comércio a sua principal fonte de renda e, em sua maioria, não são paraenses – com destaque para os nordestinos – o que está em consonância com a tradição imigrante da região estudada.

Já em relação às categorias dos produtos, a pesquisa constatou que os de uso medicinal foram os mais representativos dentre os entrevistados, seguido pelo uso artesanal e alimentício. Foram registradas 42 etnoespécies de uso medicinal, dentre elas as conhecidas andiroba (Carapa guianensis) e copaíba (Copaifera spp.), e com aplicação no tratamento de inflamações e reumatismo.

“Especula-se que no Brasil, o comércio de plantas medicinais é bastante forte, mas existem poucos dados quanto a volumes e preços. Pode-se supor, portanto, que o comércio de plantas medicinais é comum em todas as cidades brasileiras, especialmente nas feiras livres e mercados”, explica Nássia.

As plantas medicinais – E foi com foco específico nas plantas medicinais comercializadas nessa região que Pedro Lima desenvolveu a sua dissertação de mestrado dentro do Programa de Pós-Graduação em Botânica, mantido em parceria do Museu Goeldi e a Universidade Federal Rural da Amazônia. Pedro, também sob a orientação de Márlia Coelho-Ferreira, visava identificar a configuração das cadeias produtivas da região do DFS e gerar informações sobre a importância econômica e potencial desse recurso.

“As plantas medicinais são demandadas predominantemente pelo mercado consumidor local e apresentam uma cadeia produtiva composta por um número reduzido de agentes mercantis” conta o mestre, lembrando que as feiras e mercados públicos ainda são espaços essenciais para a comercialização de plantas medicinais nesta região. E ainda destaca: “os resultados mostraram que a área apresenta uma riqueza notável de espécies botânicas de uso medicinal, e que as feiras e mercados de público desempenham funções importantes na distribuição de plantas medicinais para a população desta área”.

A vida que vem da floresta

A BR-163 é o locus de pesquisa que investiga produtos florestais não-madeireiros

O Distrito Florestal Sustentável (DFS) da BR-163 - a Santarém-Cuiabá - é um complexo geoeconômico e social criado com vistas ao desenvolvimento integrado através de atividades de base florestal. A região conta com mais de 90% de área ocupada por florestas com predominância de terras públicas.

Localizado na região oeste do Estado do Pará - compreendendo a área que se estende de Santarém até Castelo dos Sonhos, no eixo da BR-163 e de Jacareacanga a Trairão no eixo da BR-230 (Transamazônica) -, sua área abrange mais de 19 milhões de hectares e compreende os municípios paraenses de Altamira, Aveiro, Belterra, Itaituba, Jacareacanga, Novo Progresso, Placas, Rurópolis, Santarém e Trairão.

É nessa localidade onde foram estabelecidos os estudos do Projeto Integrado Ministério da Ciência e Tecnologia e Embrapa (Pime), ao qual os estudos de Nássia Carvalho e Pedro Lima estão vinculados. O Pime, coordenado pela pesquisadora Ana Albernaz, do Museu Goeldi, constitui-se numa ação para integrar as competências científicas de diferentes projetos de pesquisa cujo foco é a Amazônia, a exemplo do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBIO).

Em face da diversidade de temáticas e disciplinas que caracterizam as pesquisas envolvidas, o Pime optou por concentrar esforços nas dinâmicas sócio-ambientais da BR- 163, e visa à geração de políticas públicas, bem como o treinamento e a capacitação de pessoal especializado em problemas ambientais e difusão de tecnologias e práticas de produção mais sustentáveis para a região.

Iniciativas promissoras

Pelo que as pesquisas vêm demonstrando, o potencial dos produtos florestais não-madeireiros tem crescido com o aumento da variedade de produtos, seja em função da extração das florestas ou do cultivo em sistemas agroflorestais. Por isso, esses produtos têm se transformado em tópico importante no debate sobre a conservação da floresta Amazônica, levando a questionamentos quanto à sua viabilidade econômica e ecológica.

“Nos últimos anos têm surgido iniciativas promissoras de uso sustentável dos produtos florestais não-madeireiros, pois, além destes recursos satisfazerem as necessidades cruciais de subsistência, eles desempenham um papel vital no comércio local e regional, tanto de populações tradicionais inclusive rurais e também das populações urbanas”, conta Nássia Carvalho.

A bolsista, no entanto, alerta que os estudos sobre os mercados para esses produtos são ainda insuficientes para atender a demanda crescente de informações que os produtores de base familiar necessitam para organizar a produção e melhorar a renda nas suas unidades produtivas.

E, da mesma forma, Pedro Lima ressalta que “para melhoria do setor florestal não-madeireiro são necessárias ações que mostrem horizontes com perspectivas positivas para os extrativistas de forma que a floresta em pé seja cada vez mais importante em suas rendas”.

FONTE: Texto de Vanessa Brasil, também disponível aqui.

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