22 de out. de 2011

A volta do "ouro" da Amazônia

Atividade “esquecida” há mais de meio século, a produção da borracha ressurge no Estado do Amazonas por meio de uma política de preço mínimo, incentivo aos seringueiros, financiamento de usinas e fomento à indústria.
 
Um conjunto de medidas governamentais fazem parte do plano de revitalização do cultivo e extração da borracha no Amazonas. Foto: Ricardo OliveiraA floresta, além de bela e indecifrável, é — às vezes — sufocante e perigosa. São muitos os obstáculos - onças-pintadas, cobras, igarapés e muitas árvores. O facão é companhia mais frequente, e a intimidade com a mata é tanta que os seringueiros não costumam se perder. “É mais fácil um homem se perder na ‘cidade grande’ do que um seringueiro na floresta”, brinca Manoel Silva da Cunha, 43, presidente da Confederação Nacional dos Seringueiros (CNS) - entidade que teve como um dos seus líderes, o mártir dos povos da floresta e da sustentabilidade, Chico Mendes.
O seringueiro, que reside em uma reserva extrativista no rio Juruá, município de Carauari (a 702 quilômetros de Manaus), relembra que foram anos embrenhado nas matas - mais de 18 anos - sem receber nenhum subsídio do governo federal, quando atuava nos seringais na década de 80.
Manoel Cunha ressalta que grande parte dos seringueiros já tinha desistido da atividade de extração do látex da seringueira, em decorrência dos baixos preços e da concorrência dos seringais de cultivo.
Mas, diante de incentivos para revitalizar a produção de borracha nos seringais, como créditos para custeio, investimento e comercialização do produto, os seringueiros estão se motivando e retornando às colocações (locais em que trabalham).
Atualmente, a produção extrativista absorve 1,7 mil famílias que labutam nas profundezas da floresta com a coleta do látex. Parte da matéria-prima que vem sendo usada pela usina processadora Andrade e Ribeiro Indústria do Látex – Borracha da Floresta, no Iranduba, e pela usina Alarico Cidade, em Manicoré, emana dos produtores de borracha das calhas dos rios Madeira, Juruá, Purus e do Baixo Amazonas.
Da mata à indústria
O empreendimento da empresa Andrade e Ribeiro Indústria do Látex consome, em média, mais de 6,5 toneladas de borracha por mês, compradas dos produtores desses municípios. O investimento total gira em torno de R$ 6,4 milhões, para a produção de artefatos de borracha, cujo destino final é a Neotec Indústria e Comércio de Pneus Ltda., fábrica da Levorin Pneus, em implantação no polo de duas rodas do Polo Industrial de Manaus (PIM), que inicia sua produção a partir do próximo mês, segundo o próprio diretor da Neotec, Eduardo Figueiredo.
O Grupo Levorin, instalado no km 22 da AM-010, vai produzir 700 mil pneus de bicicleta e outros 100 mil de motocicletas mensalmente. Serão mais de R$ 120 milhões de investimentos e a geração de 800 novos empregos diretos, sendo 400, em 2011, e o restante no próximo ano.
Financiamento e subsídio federal
A extração do látex sempre foi a principal atividade na floresta amazônica, mas chegou a ponto de não haver mais comprador para o produto. ”Se antes os seringueiros tiravam R$ 1,20 por quilo de borracha, com os incentivos, eles passaram a vender o quilo por R$ 3,50. Hoje, por mês, é possível lucrar mais de R$ 1 mil. Estamos resgatando uma atividade que estava perdendo terreno“, frisa Manoel Cunha, presidente da CNS. Ele explica que a política de garantia do preço mínimo da borracha, por meio do governo federal, via Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ajuda os seringueiros a retomarem o ‘Eldorado do látex’. De acordo com a CNS, são 17 associações e cooperativas em 12 municípios. A safra da produção de borracha do Amazonas saiu de 32 toneladas em 2002, segundo o IBGE, para 704 em 2010, com estimativa de chegar a 1,1 mil toneladas até dezembro.
Para atender à meta, o proprietário da usina Borracha da Floresta, Osmar Andrade, afirma que 60 novos empregos diretos foram criados a partir do projeto. “Por enquanto estamos agregando 2 mil famílias, mas a nossa expectativa é que esse número chegue algo em torno de 10 mil famílias em seis anos”, ressalta o empresário. Por outro lado, a Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam) financia parte do projeto — R$ 4,3 milhões — com 24 meses de carência e outros 72 de amortização.
Os ‘guardiões da floresta’
A partir de 1970, chegaram os fazendeiros na Amazônia, expulsando os seringueiros, derrubando a floresta e, assim, iniciando os conflitos de terra. Sob essa ameaça, os seringueiros começaram a se unir em cooperativas e sindicatos, e surgiram as grandes lideranças dos seringueiros como Chico Mendes. Sua luta foi interrompida, em 22 de dezembro de 1988, com o seu assassinado na porta de casa.
Nesses conflitos, os seringueiros se mostraram como os ‘guardiões da floresta’, e, hoje, sua convivência com a floresta serve como exemplo, ao mostrar que o homem pode viver da natureza sem destruí-la.
O chefe do Departamento de Produtos Florestais da Agência de Desenvolvimento Sustentável (ADS), Willis Meriguete, argumenta que, com a necessidade de preservar a floresta, os países desenvolvidos passaram a entender que a borracha da Amazônia é um ecoproduto crucial para o prosseguimento das técnicas extrativistas com baixo impacto à natureza. Segundo ele, a cadeia de apoio aos produtores é uma estratégia para alavancar o comércio extrativista sem destruir a floresta, mantendo os seringueiros em constante labor. “A atividade dos seringueiros é considerada ecologicamente correta porque as árvores não sofrem com a extração e, ao contrário, passam a fabricar ainda mais látex após a sangria”, ressalta Meriguete.
Alistamento de ‘soldados’
Neto de um ‘soldado da borracha’, Manoel Cunha, lembra que seu pai, Joaquim Cunha, 77, é o único seringueiro, desde a época áurea da borracha, que está na ativa. O presidente da CNS, conta que seu pai é amazonense, mas o avô, Raimundo Cunha, fez parte de um verdadeiro exército de mais de 50 mil brasileiros alistados e enviados à Amazônia para extrair borracha entre1943 e 1945.
Enquanto os Estados Unidos e aliados lutavam na Segunda Guerra Mundial, os nordestinos eram convocados pelo governo para atender à missão de extrair a borracha que chegaria às terras americanas. Isso porque a Malásia, principal fornecedor mundial, estava ocupada pelos japoneses.
Da terra seca no Nordeste, cidade de Crato, no Ceará, até as margens do rio Juruá para ocupar sua colocação, Raimundo Cunha enfrentou por meses viagens de ônibus e de barco. “Na época para se chegar até aqui tinha toda uma logística e, em outras regiões do Estado, era quase impossível adentrar em uma mata virgem”, lembra.
Manoel Cunha conta também que, na época, a maioria dos seringueiros era explorada pelos chamados “coronéis” ou “patrões”. “A lutas desses homens era muito grande e sem recompensa. De todas as extrações que faziam, o lucro era mínimo. O produto saia das mãos do seringueiro e passava por dois atravessadores até chegar ao comprador. Hoje, tudo mudou, por meio das cooperativas. Quando trabalhei na década de 80 nunca vi subsídio do governo”, revela o presidente da CNS.
O seringueiro Getúlio Nascimento, 56, que atua em Manicoré (a 681 quilômetros de Manaus), desde os 8 anos de idade, conta que a rotina dele, e de muitos dos extrativitas, mudou para melhor. Mas, que não esquece o labor entre os seringais. Antes de o sol nascer, ele já está na lida, com seu inseparável terçado, entre outros equipamentos para a retirada do látex e a garantia do sustento da sua família.
Caminho perigoso e sem volta
Aproximadamente 30 mil seringueiros morreram abandonados na Amazônia, depois de terem exaurido suas forças extraindo o ‘ouro branco’. Morriam de malária, febre amarela, hepatite e atacados por animais como onças, serpentes e escorpiões.
Ao remontar a história, Manoel Cunha, presidente da CNS, lembrou que o governo brasileiro também não cumpriu a promessa de reconduzir os ‘soldados da borracha’ de volta às suas terras ao final da guerra, reconhecidos como heróis e com aposentadoria equiparada à dos militares. Calcula-se que os serigueiros conseguiram retornar ao seu local de origem (a duras penas e por seus próprios meios) quase 6 mil homens.
Mas quando chegavam tornavam-se escravos por dívida dos coronéis-seringueiros e morriam em consequência das doenças, da fome ou assassinados, quando resistiam lembrando as regras do contrato com o governo. Quando atuou nas colocações na década de 80, na comunidade de São Raimundo, a oito horas de voadeira da sede do município de Carauari, Cunha disse que a família dele passou por momentos difíceis e que nunca recebeu, na época, subsídios do governo, incentivo que muito se ouviu falar. “Naquele tempo, nunca vi um centavo de subvenção do governo federal em minhas mãos, diferentemente do que acontece hoje”, completa.
FONTE: Foto de  Ricardo Oliveira, texto de Naférson Cruz, da Equipe EM TEMPO, enviado por Ascom GTA.

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